Desde a década de oitenta, a poesia e a música brasileiras contam com o talento de Alice Ruiz. Na poesia, trouxe um original verso curto, concentrando inventividade de linguagem, idéia e sensibilidade. Na canção, as palavras exatas para serem cantadas por gente como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Gal Costa, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, entre outros. Também é uma das maiores cultivadores do haicai no Brasil. Já publicou diversos, numa trajetória que se aprofunda dia a dia. Suas oficinas de haicai levam a sabedoria desse gênero a diversos lugares do país. Ao lado de poetas como Chacal e Paulo Leminski, trouxe uma nova matriz criativa para a poesia brasileira contemporânea. Seus primeiros livros, que já faziam bastante sucesso em Curitiba, cidade no sul do Brasil onde Alice vivia, foram reunidos num livro marcante chamado Pelos Pêlos, lançado por uma grande editora nacional em 1984. Os haicais, poemas curtos e poemas visuais desse livro são o que de melhor se produziu nesse período. Um novo público, formado por jovens leitores, muitos deles, poetas, encontrou na visão de mundo, na proximidade da sua dicção, uma nova forma de se relacionar com o texto poético. Na sequencia, Alice lançou Vice-versos, novamente um conjunto ainda mais refinado de poemas. Sua produção de haicai se intensificou, e é lançado Desorientais, um volume inteiro com os tercetos de origem japonesa. Suas letras de música foram reunidas no livro Poesia pra tocar no rádio. Depois, mais haicais no volume Yuuka, título dado pela comunidade nissei em reconhecimento a sua maestria no gênero. Alice recebeu importantes prêmios, como o Jabuti, o mais respeitado que um escritor pode receber no Brasil. Sua produção continua intensa e renovada. Seu rigor, sua inteligência e sua criatividade exigem que ela mesma se refaça como autora. Seus dois livros fundamentais que estavam esgotados, Pelos Pêlos e Vice-versos, estão reunidos em DOIS EM UM, lançado recentemente pela editora Iluminuras. Desse livro, são os três poemas abaixo.

1
tem palavra
que não é de dizer
nem por bem
nem por mal
tem palavra
que não é de comer
que não dá pra viver
com ela
tem palavra
que não se conta
nem prum animal
tem palavra
louca pra ser dita
feia bonita
e não se fala
tem palavra
pra quem não diz
pra quem não cala
pra quem tem palavra
tem palavra
que a gente tem
e na hora H
falta



2
enchemos a vida
de filhos
que nos enchem a vida
um me enche de lembranças
que me enchem
de lágrimas
uma me enche de alegrias
que enchem minhas noites
de dias
outro me enche de esperanças
e receios
enquanto em incham
os seios


3
já não temos os fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta


Canções

Orixás
Música: Chico César
Letra: Alice Ruiz
viajei por tantos mares
atravessei tantos mundos
tornei-me um deus desterrado
dentro de um outro terreiro
um a um perdi meus reinos
meus tesouros meus assuntos
mas serei um deus guerreiro.
mesmo que um navio negreiro
me leve pra outro mundo
sou oxum e iemanjá
sou os ventos de iansã
beleza, força, coragem
todas na grande viagem
vem junto obá e nanã
sou ogum e sou xangô
sou oxóssi o caçador
ferro, fogo e paciência
levados pra terra estranha
sem hoje, só, amanhã

Do jeito que você queria
Música: Celso Loch
Letra: Alice Ruiz
vontade de ficar sozinha
só pra saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria do jeito
que você queria

Se
Música: Waltel Branco
Letra: Alice Ruiz
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer,
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso,
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo,
ia ser todo dia

Sonho de poeta
Música: Waltel Branco
Letra: Alice Ruiz
Quem dera fosse meu
o poema de amor definitivo
Se amar fosse o bastante
poder eu poderia
pudera, às vezes,
parece ser esse
meu único destino
Mas vem o vento e leva
as palavras que digo minha canção de amigo. Um sonho de poeta
não vale o instante vivo.
Pode que muita gente
veja no que escrevo
tudo que sente
e vibre, e chore e ria como eu, antigamente, quando não sabia
que não há um verso, amor,
que te contente.


Alice
en el país de las maravillas

Traducción Laura Dodyk

La poesía y la música brasileras cuentan desde los ochenta con el talento de Alice Ruiz. En poesía, desarrolló en sus versos cortos una sensibilidad y un lenguaje original, al tiempo que escribió canciones para ser cantadas por gente como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Gal Costa, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, entre otros. También es una de las más importantes cultivadoras del haiku en Brasil. Además de sus haikus publicados, sus talleres promueven este género en diversos lugares del país. Junto a poetas como Chacal o Paulo Leminski, abrió un nuevo matiz creativo para la poesía brasilera contemporánea. Sus primeros libros fueron un éxito en Curitiba, ciudad del sur de Brasil en la que nació, allá en 1946. Más tarde, en 1984, una importante editorial lanza los libros en un solo tomo titulado Pelos Pêlos, que tuvo buena repercusión. Los haikus y los poemas cortos y visuales de ese libro están dentro de lo mejor que se produjo en ese período. Sus textos acercaron la poesía al público joven y condujeron a nuevos poetas hacia una forma particular de relacionarse con la expresión poética. Más adelante Alice lanzó Vice-versos, un conjunto todavía más refinado de poemas. Intensificó su producción de haikus y lanzó Desorientais, un volumen entero de tercetos de origen japonés. Sus letras de canciones fueron publicadas en un libro de poesía que se recita en la radio. Publicó más haikus en el libro Yuuka, título dado por la comunidad nissei en reconocimiento por su maestría en el género. Alice recibió premios notables, como el Jabuti, que es el más respetado dentro de los que un escritor puede recibir en Brasil. Su producción continúa siendo intensa y se renueva: su rigor, su inteligencia y su creatividad exigen que ella misma se renueve como escritora. Actualmente sus dos libros más importantes, Pelos Pèlos y Vice-versos, están agotados, pero fueron reunidos en DOIS EM UM, lanzado hace poco por la editorial Iluminarias. A ese libro pertenecen los siguientes tres poemas.

1
hay una palabra
que no se dice
ni por bien
ni por mal
hay una palabra
que no se come
que no da vida
hay una palabra
que no cuenta
ni para un animal
hay una palabra
loca por ser dicha
fea hermosa
y no se dice
hay una palabra
para el que no dice
para el que no calla
para el que tiene palabra
hay una palabra
que la gente tiene
y en la hora H
falta



2
llenemos la vida
de hijos
que nos llenen la vida
uno que me llene de recuerdos
que me llene
de lágrimas
una que me llene de alegrías
que llene mis noches
de días
otro que me llene de esperanzas
y recelos
mientras me hinchan
los senos
 
3
ya no tenemos fantasmas
invoco a todos
que vengan unidos
poblar mis días
atormentar mis noches
entre tantos
locos y libres
existe uno
que es dulce
y que me falta

 

Sus canciones

Orixás
Música: Chico César
Letra: Alice Ruiz
Viajé por tantos mares
Atravesé tantos mundos
Me volví un dios desterrado
Dentro de otro terreno
Uno a uno perdí mis reinos
Mis tesoros, mis asuntos
Pero seré un dios guerrero.
Igual que un navío de negros
Me lleve para otro mundo
Soy Oxum y Iemanjá
Soy los vientos de Iansã
Belleza, fuerza, coraje
Todo en un gran viaje
Ven junto a Obá y Nanã
Soy Ogum y soy Xangô
Soy Oxóssi*, el cazador
Hierro, fuego y paciencia
Llevados a la tierra extraña
Sin hoy, sólo mañana

[*Nota de la R: Oxum, Iemanjá, Iansã, Obá, Nanã, Ogum, Xangô y Oxóssi son nombres de dioses de la tradición umbanda]

De la manera que vos quieras
Música: Celso Loch
Letra: Alice Ruiz
Ganas de quedarme sola
Sólo para saber
Si ibas
O venías
Cuando dejaste
Esa amargura
En mi pecho
Pedazo estrecho
Defecto en la mercadería

De la manera que vos querías

Si
Música: Walter Branco
Letra: Alice Ruiz
Si acaso
La gente cruzara
Iba a ser un caso serio
Ibas a reír hasta el amanecer,
Yo iba a ir hasta suceder
Un día de improviso,
De noche una farra
La gente iba a vivir con garra
Yo iba a sacar de oído
Todos los sentidos
Iba a ser tan divertido
Tocar uno solo en dueto
Iba a ser gracioso
Iba a ser un gozo,
Iba a ser todo el día
La misma alegría
Hasta dejar de ser poesía
Y volverse tedio
Y ni me mejor vestido
Sería remedio
De ahí, se va quedando por ahí,
Me voy quedando por aquí,
Evitando, desviando,
Si acaso la gente se me cruzara

Sueño de poeta
Música: Walter Blanco
Letra: Alice Ruiz
Ojalá fuera mío
El poema de amor definitivo
Si amar fuera lo bastante
Poderoso yo podría
Pudiera, a veces,
Parece ser ese
Mi único destino.
Pero viene lento y me lleva
Las palabras que digo
Mi canción de amigo
Un sueño de poeta
No vale un instante vivo.
Puede ser que mucha gente
Vea en lo que escribo
Todo lo que siente
O vibre, y llore y ría como yo,
Como hace tiempo,
Cuando no sabía
Que no existe un verso, amor,
Para dejarte contento.


 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Alice
no país das maravilhas

foto gentileza Ricardo Silvestrin
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