Diario de una bebé

A Koldo Campos Sagaseta lhe conheci lendo-o vários anos no sítio Rebelion.org. Portanto, com um ácido autor de crônicas sociopolíticas de grande qualidade literária e me tornei “torcedor” fanático deste basco. Com o passar do tempo, depois de ter lido sua clássica coluna Cronopiando dezenas de vezes, de ver seus textos colocados em trabalho de grande lucidez estética e intelectual dos cartunistas José Mercader e Juan Kalvellido, resultou que por causa de um sítio que editamos no Brasil –desacato.info-, surgiu a possibilidade de desvirtualizar o conhecimento deste magro careca, de olhos esbugalhados, que andou alfabetizando na Nicaraágua, que ainda tem uma coluna em El Nacional de República Dominicana, onde morou muitos anos, e que voltou à pátria basca e não é espanhol por nenhum lado.



Este senhor de aspecto sério e sisudo teve a brilhante idéia de liberar às crianças da mácula histórica de filmes horripilantes como “Olha quem está falando” e fazer um dueto imaginário (e nem tanto) com sua filhinha Itxaso, que hoje está entre os dois anos e meio ou três. O resultado: ITXASO, DIÁRIO DE UMA BEBÊ é estupendo, sério e humorístico à mesma vez, e se está vendendo muito bem naquele país que ele corretamente não menciona e que tem fronteira com o País Basco, uma tal de Espanha.
Aqui vai para os lamasmédulos leitores uma entrevista realizada com o genial basco. Bom proveito.



Koldo Campos Sagaseta –além de Itxaso, Diário duma bebê
lê em exclusiva para Lamás Médula, três poemas:

Estadística incompleta, Olhos cegos e A vida em cifras
.






Koldo, um papai ladrão de idéias
Itxaso, Diário de uma Bebê – Entrevistados o autor e o (a) personagem



A Koldo –¿Como te sentis-te ao construir o Diário. Estavas-lhe dando voz à tua filha ou lhes estavas roubando as idéias?

Koldo –Entre outras fortunas, ter um bebê é uma oportunidade que não se repete, de não ser que apareça outro bebê, de retornar às tuas origens, de tender pontes ao teu passado e, em conseqüência, estar em capacidade de melhor entender tua vida. E si arredor disso tudo, podes, ademais, aproveitando a nova perspectiva, escrever a história do bebê que te ensinou a escrever, a única possível sensação é essa paz feliz de que volta a olhar com novos olhos. Em definitivo... que lhe estava roubando as idéias.

A Itxaso –¿Teu papai tem sido um bom babá? ¿Confiarias teu futuro filho aos seus cuidados?

Itxaso –Isso de bom babá… poderíamos deixá-lo por aprovado, e sim, se for o caso, ao meu filho o deixaria com sua avó.

A Koldo –¿Não tiveste medo de que acreditassem que estavas usando a tua neném para fazer uma bobagem do tipo “Olha quem está falando”, só para ganhar uns quantos euros?

Koldo –Para dizer a verdade, mais do que medo, pavor de que o leitor tomasse o livro entre suas mãos, suspeitasse trás o título uma vulgar e cor-de-rosa sucessão de tópicos infantis e o acabasse devolvendo à sua prateleira sem tê-lo aberto. Eu também desconfiaria do diário de uma bebê.

Não assisti essa bobagem da que me falas e, possivelmente, e levando em consideração os informes que a respeito me tem proporcionado Urra (Urra – diminutivo de Urrategi, nome de mamãe de Itxaso e companheira de Koldo Campos Sagaseta), não me animei a assisti-la nunca mas... se se te passa pela cabeça alguma “bobagem” para ganhar alguns euros, podes contar comigo.

A Itxaso –¿Koldo é um escritor vasco, ou español, ou dominicano, ou tudo junto?

Itxaso –Acredito que essa pergunta deverias tê-la feito a ele, mas, já que insistes e at[e onde eu seu, Kodlo é uma desgraça aprendendo euskera, uma espécie de basco com gosto de banana vindo do Caribe dominicano, que se diz ser de Pamplona e que nada tem amado tanto como a Cuba. E tira-me essa coisa de espanhol.

A Koldo –¿Que lhe querias dizer ou de fato lhe dizes-te aos pais e mães com este livro?

Koldo –Algo que também dizia a mim mesmo. Que de nós, dos país e mães, em boa medida, vai depender que tenhamos um filho ou um idiota, que em função dos valores do que, além de falar-lhes lhes demos cumpridas referências práticas, vão crescer como cidadãos ou como déspotas, que embora não só depende de nós, podemos eleger entre a criticidade e a vulgarização, entre o respeito e o medo, entre viver com eles ou contra eles.

A Itxaso –¿Que lhe darias e que lhe dirias ao teu pai por ter criado este Diário, quando tenhas... digamos, 20 anos?

Itxaso –A verdade é que, da forma que meu vai o meu pai, temo que dentro de vinte anos não o tenha na minha frente para lhe dizer nada... mas, se por caso põe da sua parte e se ajuda um pouco mias e deixa de fumar, por exemplo, e passam vinte anos, provavelmente, em justa represália, eu também lhe escreva seu diário e suas correspondentes graças e desgraças.

A Koldo –Colocas-te a tua filhinha para fazer política?, ou me engano...

Koldo - Não te enganas. Simplesmente, não quis que fosse a única sem ser manipulada. A única criança no mundo absolutamente pura, imaculada, que não tem sido recém batizada, que não professa credo algum, que ainda não foi inscrita, que não tem sido exposta às vitrines, que não tem cartão, que carece de celular... Por isso a manipulo e, até nos contos que lhe faço, com freqüência, os reis se convertem em tiranos, as bruxas em donzelas e os gigantes em anões.

A manipulamos porque nem sua mãe nem eu quisemos ser menos do que os outros. Por outro lado, tendo em conta que não dispomos de patrimônio algum, o único que podemos aporta-lhe é nosso modesto inventário de amores, as palavras que temos ido guardando, e deixá-las para que ela as conheça, não para que as carregue, que Itxaso bem saberá o que fazer com elas.
A Itxaso –¿Nossos filhos, ou seja, você e milhões e milhões de colegas seus, têm futuro neste sistema social?

Itxaso –Eu não sei se nós, vamos ter futuro, mas, quem não tem futuro, e disto não me cabe a menor dúvida, é este sistema social. O problema dos desejos, inclusive, dos melhores desejos, dos mais bonitos, por mais razoáveis e equânimes que sejam, é que sempre vão precisar do auxílio dos braços, das vozes, do alento de todas as pessoas decididas a construir um melhor mundo, e não tenho muito claro até que ponto, há tantos braços quebrados, tantas vozes surdas, tantos alentos tosses. Mas, e se não faço a revolução... que outra coisa posso fazer?

-Capítulo do livro, obséquio pros leitores de Lamás Médula –gentileza do autor do Diário do Itxaso.

Como fazer para não errar quando se veste a um bebê
É possível que nenhuma receita seja infalível y a que se segue é um bom exemplo, mas, o único que se precisa para vestir um bebê é um dicionário; simples e comum dicionário no qual aprender de memória as definições de conceitos tais como “vestir” e “disfarçar”.
– Vestir: Ato de pôr ou pôr-se roupa.

–Disfarçar: Mudar o aspecto natural de pessoas ou coisas.

Depois de dominadas ambas definições deverá proceder a vestir ou disfarçar ao seu filho, segundo seja seu interesse. Lembro-lhe que os carnavais, geralmente são em fevereiro.

Além do dicionário, há três compromissos da parte dos pais que não devem ignorar-se:

–Primeiro compromisso: Nenhum delito que tenha podido cometer seu filho é merecedor de vesti-lo de “marinheirinho”. Não importa o que tenha feito, não importa a gravidade da sua falta, de nenhuma maneira pode uma criança ser forçada a padecer traje de tanto ultraje. Nem sequer no caso da primeira comunhão é aconselhável roupa tão anacrônica. A criança “marinheira” não só será objeto de burlas cruéis por parte dos amigos e inimigos, como que acabará perdendo sua confiança no ser humano no dia em que, de verdade, conheça um marinheiro e aprecie a diferença que separa a brincadeira da vida.

Prova gráfica do maltrato psicológico à qual é submetida uma bebê vestida de marinheirinha. A bebê da fotografia, à que por razões legais não se identifica, fez a denúncia e aportou as provas.




–Segundo compromisso: Nunca disfarce sua filha de “menina da casa de campo”. Falo desses vaporosos vestidos de bainha dupla, com anáguas, inclusive, e gola e gola-dupla, manga e sobre-manga, e branco avental de amplos bolsos com florzinhas bordadas com fio cor de ouro. Sua filha não tem culpa de que você tenha passado um dia ruim.

–Terceiro compromisso: Pode se lhe desculpar que, ocasionalmente, em circunstâncias muito especiais, disfarce seu filho de marinheirinho. Se lhe pode perdoar que, atordoado por sabe-se lá quais causas, disfarce sua filha de margarida do campo mas, nunca, sob nenhum conceito, o disfarce de adulto.

Diario do Itaxo, 24 de abril

Uma das piores desgraças que pode acontecer na vida dos bebês é ter pais com saudade. E dejando claro que cualquer parecido com minha realidade é pura coincidência, resulta realmente triste dar uma olhada pelos afães dos pais por registrar a sua vida, como se o destino do género humano dependera disso. Anotando no cuaderno familiar de efemérides, a data que por vez primeira fizeram o amor, foram ão cinema ou comieram perdices. Ou ver os estantes repletos de objetos estranhos que eles guardan com ciumento, como a placa do primeiro carro que espatificaram, uma caija com areia de uma ilha caribenha, a primeira mamadeira com a que me alimentaram –apenas vou pelo segundo-, três dançarinas de porcelana, presente de algúm enemigo honrado, y um cisne de uma cerâmica tão fina que não pode-se tocar, agarrar, babar nem trocar de lugar. Além dos estantes da saudade, estám as fotos saudosas, as fotos que aguardam o seu álbum, postales, chaveiros e outras historias pela casa, e só vai ver uma mínima parte das saudades existentes e arquivadas. Porque nada disse dos recortes de jornal do casamento, as felicitações pelo aniversario y natales, as cartas recebidas ou os inumeráveis días que todos temos no calendario para regalar ou ser regalados, dos que amontoam-se nas gavetas as conseqüências.

Não mencionei tampouco o carcomido armário de madeira próximo a derrubar-se, mas ainda serve para acumular saudades. Ou o imposíble cencerro tantas vezes roto, tantas reparado, que por ser o presente da sogra, tem que ficar na entrada da casa. Soube de matrimônios que na eleição do cuarto para o futuro bebê ou para um desvão para as suas saudades, optaram pela vasectomía.

Há pais que cada vez que tem que mudar de moradia, a metade das pertenças que levam são saudades. E eu penso num remédio infalible para evitar ser vítima das proprias saudades: se o senhor é dissa classe de pessoas que precisam viver no passado porque transformou o seu presente num almazém de lembranças mas não de vivências, eu aconselho, então, que lembre. Sim, como olhe, mas lembrar-lo todo, absolutamente todo e lembrar-lo bem.

Reste-se anos assim como avançam as lembranças. Para continuar mergulhando no seu passado, rescatando para a saudade todas as grandes e simples bobeiras que prodigalizou na sua vida de solteiro, de casado, de jovem, de crianza, de bebê, até desaparecer no útero da sua mãe, com aquele chamado primeiro día e o primeiro choro. E continuar lembrando aquele noveno mês, e o oitavo, e o sétimo até finalmente chegar ão día da concepção. E ainda mais atrás. Atê encontrar o espermatozoide que deu començo à sua saudade. E o óvulo que foi o cúmplice. E encontrar-se com seu pai e sua mãe. E com os avós. E com a última imagen da árvore genealógica, e continuar ainda mais. Até encontrar-se com o macaco e não conformar-se. E continuar lembrando pela saudade, mais profundamente, muito mais adentro até chegar a deus. Ou à cósmica explosão que deus inventou. E continuar lembrando até que se fundam os escassos neurônios que ainda tenha. E ja não vai lembrar mais porque não há nada mais para lembrar. E uma vez que lembre todo, absolutamente todo, leve a sua pesada memoria ão primeiro lixeiro que encontre, para que fique depositada entre as sobras de alguma noite velha.

Mas de jeito nenhum, nunca na vida, oculte no seu diario a data do día que perdeu a sua memória.

ESTATÍSTICA INCOMPLETA

Dizem que os mortos foram um milhão
Porque acharam os cadáveres
E indagaram seus nomes
E contaram seus ossos
E enterraram seus restos.

Mas quem é capaz de enumerar aos vivos
Quem vai compensar-nos as teias de aranha
As escadas escuras
Os buracos
Os outros versos que detrás das licenças
O sentinela debaixo do chapéu
A quantos mortos ascende o número de vivos

OLHOS CEGOS
De olhar-te e não verte já não tenho olhos
Todos os perdi pela casa
Algums pela rúa, não sei como nem quantos
Mas os perdi, ão començo
Quando os proscrevi por aleivosos
E os evacuei por miseráveis.
Reconheço que encontrar-os de cualquer jeito
Espalhados, sem brilho nem pestanas, mortificava tanto
A minha vergonha, que até pensei em recolher-os
E desculpar os seus desaires

Mas já não les falo, já não saben olhar-te

Me houvera moldado com que voltassem a acolherte nas suas retinas
E te guardassem a salvo de distâncias
E nem sequer isso se dignaram fingir-me.


Ontem, um chorava, inconsolavel
Recostado sobre o tubo de pasta de dentes
Doido de saudade
E outro mais achei deambulando pelo espelho do banheiro
Resignado a sua sorte, como se soubesse o desenlace

Mas já não me serve, já não sabem olhar-te.

São tantos y tão cegos
Que quase é imposivel não pisar meus olhos.
Onde quer que vou os encontro
E como se me viessem
Me piscam acolhidas e reencontros
Desesperados por voltar a ser meus olhos
E sem que meu desdén os acovarde

Mas já não me interesam, já não sabem olhar-te.

Entra à cozinha e assomada à xícara de café
Te assalta de repente uma pupila conhecida
Propoendo-te novos horizontes
E mais e melhores perspectivas.

Só abrendo uma gaveta
Procurando um par de meias, uma carta perdida
Algum dos meus olhos que tive
Me reproche a sua ausencia
Quando eu divago pompas e desastres
Mas já não me bastam, já não sabem olhar-te.
Nas noites, insolentes, se apostam debaixo da minha insônia
E com um afã de murmurar-me desventuras
E prodigalizar-me reproches e pesares

Mas já não os ouvo, já não sabem olhar-te

Se ao menos de soslaio
Os olhos que ontem fossem os mesmos que hoje não são
Não te dessem por perdida
E encontrar-te não fosse uma adivinhação
E saber-te não costasse a vida…

Mas já não os quero

Já não sabem olhar-te


A VIDA EM CIFRAS
Passam os anos
Ronronando como gatos em cio
Passa o tempo que passa

A noite nos espelhos
Passa a vida e penso
Que já é tarde para ser o quarto mosqueteiro
Ou o outro Pancho, o que não tinha boleros

Já quase nem registra minha memória
Aquela ilha da Polinesia
Que descobri aos vinte num documental da televisão
Aquella praia na que prometi retirar-me

Quando os quarenta fossem velhos

Aquela ilha dos sonhos
Com o seu veleiro no seu embarcadouro
No meio, uma grelha
Uma rede à sombra
De um par de coqueiros
Un pássaro, uma onda, uma nativa dançando a havaiana
E sei que não tem que ficar ninguém
Que possa dispensar agora
A confiança de acreditar em mim se minto aos quinze anos
Sonhei com emular ao Julio Verne
E viajar ao centro da Terra
Depois que aos nove sucumbira num breve lapso
Que a cualquer sobrevim
A missionárias y cristiãs invocações
Que para a sorte da igreja não existeram

Porque aos seis anos mais tarde também quiz ser o Galileo
Entrando ao Vaticano num Caballo de Bastos
E queimar ao Cisneros na fogueira
E engravidar à virgem dos sonhos

Os anos passam murmurando os seus futuros incertos
No día e as andanças
A vida passa e tarde temo que já é meu nunca
Para converter-me no quinto Mosqueteiro
Ou esfregar as maracas do Gardel
E já não tenho tempo para inventar a Guía Universal da Saudade
Nem achar lua cheia os entulhos que deixou o centro das minhas ruínas.

E duvido que o domingo que fica por passar
Fosse feliz a despertar-me tranqüilo na Serra Mestra

E que o noticiário das nove finalmente me conte

Que vencido e desarmado o exército infame

Entraram os nossos na história

Mas o tempo que passa é um tempo que fica
E assim parecesse ao juízo um tonto consolo
Até no benefício da dúvida
Tenho a aventura de ser eu

De ser o que nunca dança
De ser o Papa Vermelho pelas manhãs

Y a Sota de Taças pela noite
E enterrar-me na areia até a sombra
E sonar-me a ira nas suas estrelas
De escrever pelo direito ou pelo avesso

De voltar a ser deus num teatro
Sem um quarto minguante que me espante

E de reconciliar-me com a criança
Que agora caminha da minha mão.



Diario de una bebé


Traducción de los poemas al portugués Laura Dodyk

A Koldo Campos Sagaseta lo conocí leyéndolo varios años en el sitio Rebelion.org, por tanto, como un ácido autor de crónicas sociopolíticas de gran calidad literaria, y me hice “hincha” fanático del vasco este. Con el paso del tiempo, después de haber leído su clásica columna Cronopiando decenas de veces, de ver sus textos colocados en trabajos de gran lucidez estética e intelectual de los dibujantes José Mercader y Juan Kalvellido, resulta que por causa de un sitio que editamos en Brasil – desacato.info -, surgió la posibilidad de desvirtualizar mi conocimiento de este flaco pelado, de ojos saltones, que anduvo alfabetizando en Nicaragua, que todavía tiene una columna en El Nacional de República Dominicana, donde vivió muchos años, y que volvió a la patria vasca y no es español por ninguno de los cuatro costados.

Este señor de aspecto serio y sesudo, tuvo la brillante idea de liberar a los niños de la mácula histórica de películas horripilantes como “Mira quién habla” y hacer un dueto imaginario (y no tanto) con su hijita Itxaso, que hoy anda por los dos años y medio o tres. El resultado: Itxaso, Diario de una bebé es estupendo. Serio e humorístico a la vez, y se está vendiendo muy bien en aquel país que él correctamente no menciona y que limita con el País Vasco, una tal de España.

Aquí va para los lamasmédulos lectores una entrevista realizada con el genial vasco. Buen provecho.

Koldo, un papá ladrón de ideas

Itxaso, Diario de una Bebé – Entrevistados el autor y el (la) personaje


A Koldo –¿Cómo te sentiste al construir el Diario? ¿Le estabas dando voz a tu hija o le estabas robando las ideas?

–Entre otras fortunas, tener un bebé es una irrepetible oportunidad, a no ser que aparezca otro bebé, de regresar a tus orígenes, de tender puentes hacia tu pasado y, en consecuencia, estar en capacidad de mejor entender tu vida. Y si alrededor de todo ello, puedes, además, aprovechando la nueva perspectiva, escribir la historia del bebé que te enseñó a escribir, la única posible sensación es esa paz feliz de quien vuelve a mirar con ojos nuevos. En definitiva… que le estaba robando las ideas.

A Itxaso –¿Tu papá ha sido un buen niñero? ¿Confiarías tu futuro hijo a sus cuidados? 

–Lo de buen niñero… podríamos dejarlo en aprobado, y sí, llegado el caso, a mi hijo lo dejaría con su abuela.

A Koldo –¿No tuviste miedo de que creyeran que estabas usando a tu niña para hacer una boludez tipo “Mira quién habla”, sólo para ganar unos euros?

–A decir verdad, más que miedo, pavor a que el lector tomara el libro entre sus manos, sospechara tras el título una cursi y rosada sucesión de tópicos infantes y acabara devolviéndolo a su estante sin haberlo abierto. Yo también desconfiaría del diario de una bebé. No he visto esa boludez de la que me hablas y, posiblemente, y a tenor de los informes que al respecto me ha dado Urra (Urra es el diminutivo de Urrategi, nombre de la mamá de Itxaso y compañera de Koldo Campos Sagaseta), no me anime a verla nunca pero… si se te ocurre alguna “boludez” para ganarse algunos euros, puedes contar conmigo.

A Itxaso –¿Koldo es un escritor vasco, español, dominicano, o todo junto?

–Creo que esa pregunta debiste hacérsela a él pero, ya que insistes y hasta donde sé, Koldo es una vaina aprendiendo euskera, una suerte de vasco aplatanao en el Caribe dominicano, que se dice de Pamplona y que nada ha amado tanto como Cuba. Y quítame esa vaina de español

A Koldo –¿Qué le quisiste decir o de hecho le dijiste a los padres y madres con este libro?

–También me lo decía a mí mismo. Que de nosotros, de los padres y madres, en buena medida, va a depender el que acabemos teniendo un hijo o un idiota, que en función de los valores de los que, además de hablarles, les demos cumplidas referencias prácticas, van a crecer como ciudadanos o como déspotas, que aunque no sólo dependa de nosotros, podemos elegir entre la criticidad y el adocenamiento, entre el respeto y el miedo, entre vivir con ellos o contra ellos.

A Itxaso –¿Qué le darías y qué le dirías a tu papá por haber creado este Diario, cuando tengas… digamos, 20 años?

–La verdad es que, al paso que va mi padre, temo que dentro de veinte años no lo tenga delante para decirle nada… pero por si caso pone de su parte y se ayuda un poco más y deja el cigarrillo, por ejemplo, y pasan veinte años, probablemente, en justa represalia, yo también le escriba su diario y sus correspondientes gracias y desgracias.

A Koldo –¿Por qué la pusiste a hacer política a tu hijita?, o me engaño...

–No te engañas. Simplemente, no quise que fuera la única sin manipular. La única niña en el mundo absolutamente pura, inmaculada, que no ha sido recién bautizada, que no profesa credo alguno, que aún no ha sido inscrita, que no ha sido expuesta a los escaparates, que no tiene tarjeta, que carece de móvil…Por ello la manipulo y, hasta en los cuentos que le hago, con frecuencia, los reyes se convierten en tiranos, las brujas en doncellas y los gigantes en enanos. La manipulamos porque ni su madre ni yo quisimos ser menos que los demás. Por otra parte, dado que no disponemos de patrimonio alguno, lo único que podemos aportarle es nuestro modesto inventario de amores, las palabras que hemos ido guardando, y dejárselas para que las conozca, no para que las cargue, que Itxaso bien sabrá qué hacer con ellas.

A Itxaso –¿Nuestros hijos, o sea, vos y millones de millones de colegas tuyos, tienen futuro en este sistema social?

–Yo no sé si nosotros, nosotras, vamos a tener futuro pero, quien no tiene futuro, y de esto no me cabe la menor duda, es este sistema social. El problema de los deseos, incluso, de los mejores deseos, de los más hermosos, por más razonables y ecuánimes que sean, es que siempre van a necesitar el auxilio de los brazos, de las voces, del aliento de todas las personas decididas a construir un mejor mundo, y no tengo muy claro hasta qué punto, hay tantos brazos rotos, tantas voces sordas, tantos alientos toses. Pero ¿y si no hago la revolución… qué otra cosa puedo hacer?


Capítulo del libro, obsequio para los lectores de Lamás Médula -
Gentileza del autor del Diario de Itxaso

Cómo no equivocarse al vestir a un bebé

Es posible que ninguna receta sea infalible y la que sigue es un buen ejemplo, pero lo único que se necesita para vestir a un bebé es un diccionario, un simple y común diccionario en el que aprenderse de memoria las definiciones de conceptos como “vestir” y “disfrazar”.
–Vestir: acto de poner o ponerse la ropa.
–Disfrazar: cambiar el aspecto natural de personas o cosas.

Una vez dominadas ambas definiciones deberá proceder a vestir o disfrazar a su hijo, según sea su interés. Le recuerdo que los carnavales, generalmente, son en febrero.

Además del diccionario, hay tres compromisos por parte de los padres que no deben ignorarse:

–Primer compromiso: Ningún delito que haya podido cometer su hijo es merecedor de que lo vista de “marinerito”. No importa lo que haya hecho, no importa la gravedad de su falta, de ninguna manera puede un niño ser forzado a padecer traje de tanto ultraje. Ni siquiera en caso de primera comunión es aconsejable atuendo tan anacrónico. El niño “marinero” no sólo será objeto de crueles bromas por parte de amigos y enemigos, sino que acabará perdiendo su confianza en el ser humano el día en que, de verdad, conozca a un marino y aprecie la diferencia que separa el juego de la vida.

Prueba gráfica del maltrato psicológico a que es sometida una bebé vestida de marinerita. La bebé de la fotografía, a la que por razones legales no se identifica, hizo la denuncia y aportó las pruebas.

 

–Segundo compromiso: Nunca disfrace a su hija de "niña de la casa de la pradera". Hablo de esos vaporosos vestidos de doble ruedo, con enaguas, incluso, y cuello y sobrecuello, y manga y sobremanga, y blanco delantal de amplios bolsillos con florecillas bordadas en hilo de oro. Su hija no tiene la culpa de que usted haya tenido un mal día.

–Tercer compromiso: Se le puede disculpar que, ocasionalmente, en circunstancias muy especiales, disfrace a su hijo de marinerito. Se le puede perdonar que, abrumado por quién sabe qué causas, disfrace a su hija de margarita silvestre pero, nunca, bajo ningún concepto, lo disfrace de adulto.

 


Diario de Itxaso, 24 de abril


Una de las peores desgracias que nos puede caer en suerte a los bebés, es tener padres nostálgicos. Y dejando claro que cualquier parecido con mi realidad es pura coincidencia, resulta en verdad penoso observar los afanes de los padres por registrar su vida, como si el destino del género humano dependiera de ello. Anotando en el cuaderno familiar de efemérides, la fecha que por primera vez hicieron el amor, fueron al cine o comieron perdices. O ver las estanterías repletas de extraños objetos que guardan celosamente, como la matrícula del primer vehículo que estrellaron, una caja con arena de una isla caribeña, el primer biberón con el que me alimentaron –apenas voy por el segundo– , tres bailarinas de porcelana, regalo de algún enemigo al que se honra, y un cisne de tan fina cerámica que no se puede tocar, agarrar, babear o cambiar de sitio. Agréguese de esa las estanterías de nostalgias, los nostálgicos álbumes de fotos, las fotos a la espera de álbum, postales, llaveros, posavasos y demás dispersas historias por la casa, y sólo estará viendo una mínima parte de las nostalgias existentes y archivadas. Porque nada he dicho de los recortes de prensa de la boda, las felicitaciones por cumpleaños y navidades, las cartas recibidas o los innumerables días que todos tenemos en el calendario para regalar o ser regalados, de los que se amontonan en los cajones las consecuencias.

No he mencionado tampoco el carcomido armario de madera próximo a derrumbarse, pero que todavía sirve para acumular nostalgias. O el imposible cencerro tantas veces roto y tantas reparado, que por haber sido regalo de la suegra, debe seguir presidiendo la entrada de la casa. He sabido de matrimonios que en la elección de la habitación para su futuro bebé o de un desván para sus nostalgias, han optado por la vasectomía.

Hay padres que cada vez que tienen que mudarse de vivienda la mitad de las propiedades que cargan, son nostalgias. Y se me ocurre un remedio infalible para evitar ser víctima de las propias nostalgias: si es usted de esa clase de personas que necesita vivir del pasado, porque ha transformado su presente en un almacén de recuerdos ya que no de vivencias, le aconsejo, pues, que se ponga a recordar. Sí, como lo oye, pero a recordarlo todo, absolutamente todo y recordarlo bien.

Vaya restándose años conforme avanzan sus recuerdos. Para seguir buceando en su pasado, rescatando para la nostalgia todas las grandes y simples tonterías que prodigó en su vida de soltero, de casado, de joven, de niño o de bebé, hasta desaparecer en el útero de su madre, con aquel llamado primer día, y primer llanto. Y seguir recordando aquel noveno mes y el octavo y el séptimo y llegar finalmente al primer día de su concepción. Y aún más atrás. Hasta encontrar al espermatozoide que dio comienzo a su nostalgia. Y al óvulo que le sirvió de cómplice. Y encontrarse con su padre y con su madre. Y con los abuelos. Y con la última imagen de su árbol familiar y seguir más allá, todavía más allá. Hasta encontrarse con el mono y no conformarse. Y seguir recordando en aras de la nostalgia, más profundamente, mucho más adentro, hasta llegar a dios, si le parece. O a la cósmica explosión que inventó a dios. Y seguir recordando hasta que se le fundan las escasas neuronas que le resten. Y ya no pueda recordar nada más porque ya no queda nada por recordar. Y que cuando haya recordado todo, absolutamente todo, lleve su pesada memoria hasta el primer basurero que encuentre, la deposite entre las sobras de alguna noche vieja.

Pero sobre todo, de ninguna manera se le ocurra, bajo ningún concepto, ocultar en su diario la fecha en que perdió la memoria.



ESTADÍSTICA INCOMPLETA
Dicen que los muertos fueron un millón
porque hallaron los cadáveres
e indagaron sus nombres
y contaron sus huesos
y enterraron sus restos

Pero quién es capaz de enumerar los vivos
quién nos va a compensar las telarañas
las escaleras a oscuras
los agujeros
los otros versos de detrás de los permisos
el centinela debajo del sombrero

A cuántos muertos asciende el número de vivos


OJOS CIEGOS
De mirarte y no verte ya no me quedan ojos
todos los fui perdiendo por la casa
algunos por la calle, ni sé cómo ni cuántos
pero los he ido extraviando, al principio
cuando los proscribí por alevosos
y los desalojé por miserables

Reconozco que encontrarlos por ahí de cualquier forma
desparramados, sin brillo ni pestañas, mortificaba tanto
mi vergüenza, que hasta llegué a pensar en recogerlos
y disculpar sus chanzas y desaires

Pero ya no les hablo, ya no saben mirarte

Me hubiera conformado con que volvieran a acogerte en sus retinas
y te guardaran a salvo de distancias
y ni siquiera eso se dignaron fingirme

Ayer, uno lloraba, inconsolable
recostado sobre el tubo de la pasta dental
enfermo de nostalgia
y otro más encontré deambulando por el espejo del baño
resignado a su suerte, como si supiera el desenlace
pero ya no me sirve, ya no saben mirarte.

Son tantos y tan ciegos
que casi es imposible no pisarlos

Dondequiera que voy me los encuentro
y como si me vieran
me guiñan acogidas y reencuentros
desesperados por volver a ser mis ojos
y sin que mi desdén los acobarde
pero ya no me importan, ya no saben mirarte.

Entras a la cocina y asomada a la taza de café
te asalta de improviso una pupila conocida
proponiéndote nuevos horizontes
y más y mejores perspectivas

Basta que abras una gaveta
buscando un par de medias, una carta extraviada
para que alguno de los ojos que tuve
me reproche tu ausencia
mientras yo divago pompas y desastres
pero ya no me bastan, ya no saben mirarte.

En las noches, insolentes, se apostan debajo de mi insomnio
y con un afán de murmurarme desventuras
y prodigarme reproches y pesares
pero ya no los oigo, ya no saben mirarte.

Si al menos de soslayo
los ojos que ayer fueran los mismos que hoy no son
no te dieran del todo por perdida
y encontrarte no fuera un acertijo
y saberte no costara la vida…

Pero ya no los quiero
ya no saben mirarte


LA VIDA EN CIFRAS
Pasan los años
ronroneando como gatos en celo
pasa el tiempo que pasa
la noche en los espejos
pasa la vida y pienso
que ya se me ha hecho tarde para ser el cuarto mosquetero
o el otro Pancho, el que no tuvo boleros
Ya casi ni registra mi memoria
aquella isla de la Polinesia
que descubrí a los veinte en un documental televisivo
aquella playa en la que prometí retirarme
cuando los cuarenta fueran viejos

Aquella isla de ensueños
con su velero en el embarcadero
en el medio, una parrilla
una hamaca a la sombra
de un par de cocoteros
un pájaro, una ola, una nativa bailando al ukelele

Y sé que no debe quedar nadie
que pueda dispensarme a estas alturas
la confianza de creerme si le miento que a los quince
soñé con emular a Julio Verne
y viajar al centro de la Tierra
luego de que a los nueve sucumbiera a un breve lapsus
que a cualquiera sobreviene
a misioneras y cristianas invocaciones
que para fortuna de la iglesia no insistieron

Porque a los seis años más tarde también quise ser Galileo
entrando al Vaticano sobre un Caballo de Bastos
y quemar a Cisneros en la hoguera
y preñar a la virgen de los sueños

Pasan los años murmurando sus futuros inciertos
en el día y los trajines
pasa la vida y tarde temo que ya se me ha hecho nunca
para convertirme en el quinto Mosquetero
o sobarle las maracas a Gardel
y ya no estoy a tiempo para inventar la Guía Universal de la Nostalgia
o hallar luna llena los escombros que dejó el centro de mis ruinas

Y dudo que el domingo que queda por pasar
vaya feliz a despertarme en la Sierra Maestra
y que el noticiero de las nueve finalmente me cuente
que vencido y desarmado el ejército infame
han entrado los nuestros en la historia

pero el tiempo que pasa es un tiempo que queda
y así parezca a juicio un tonto consuelo
hasta en el beneficio de la duda
me queda la aventura de ser yo
de ser el que nunca baila
de ser el Papa Rojo por las mañanas
y la Sota de Copas por la noche
y enterrarme en la arena hasta la sombra
y sonarme la ira en sus estrellas

De escribir al derecho y al revés
de volver a ser dios en un teatro
sin un cuarto menguante que me espante

Y de reconciliarme con el niño
que ahora anda de mi mano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

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